terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Em uma noite, a lua estava baixa e avermelhada e entramos na água. Na outra, andamos e falamos e ouvimos e nos sentamos perto da areia, mas não na areia, e falamos e ouvimos.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010






























































































(fotos de Nelson Kao)



quarta-feira, 30 de dezembro de 2009














O Senhor Ferdinand observa. Observa com olhos grandes, com olhos pequenos, com um só olho, olhando pela janela da casa, para o jardim. Ele usa uma meia amarela e outra branca. Alguma coisa estranha está a acontecer, pensa. Olha fixamente - sem ver - para as árvores, enquanto enrola o cabelo com o dedo.

O vento rodopia na relva. Príncipes de papel pairam pelo jardim. Eles agitam-se ao vento. Há qualquer coisa errada, pensa o Senhor Ferdinand, pela centésima vez nesse dia. De meias, vai até à cozinha. Não, ele não tem fome. É outra coisa.

Um sentimento de tristeza invadiu-o. Transparente. Como gelo. É um sentimento como se... Como se alguma coisa que costumasse estar ali tivesse desaparecido. Perdi alguma coisa, pensa o Senhor Ferdinand. É isso. Desapareceu.

(início de "O Senhor Ferdinand", de Agnes Guldemont, com ilustrações de Carll Cneut e tradução de Maria João Archer de Carvalho - livro comprado por acaso em Lisboa, em uma livraria que estava para fechar e por isso tinha todo o seu estoque em promoção)

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

You Said Something
(PJ Harvey)

On a rooftop in Brooklyn
One in the morning
Watching the lights flash
In Manhattan
I see five bridges
The Empire State Building
And you said something
That I've never forgotten

We lean against railings
Describing the colours
And the smells of our homelands
Acting like lovers
How did we get here?
To this point of living?
I held my breath
And you said something

And I am doing nothing wrong
Riding in your car
Your radio playing
We sing up to the eighth floor
A rooftop, Manhattan
One in the morning
When you said something
That I've never forgotten
When you said something
That was really important

domingo, 27 de dezembro de 2009

Chiado
(com algo de PJ Harvey)

Quando nos encontramos
minhas mãos já se haviam aquecido um pouco
ou eu já havia deixado de pensar nelas
e no frio
ou agora, três dias depois,
deixei de pensar nas mãos
ou esqueci

Estávamos na rua
estava frio
mas começo pelo frio
porque sei que as temperaturas andam baixas
e não porque comece por aí a imagem
(quando ela começa
já estamos sentados no café
sem casacos)

Não, a ausência dos casacos
tampouco se nota
nesta imagem que habita seu nome quando o digo:

você levanta o olhar até mim
há uma tristeza
um silêncio curto
você sorri e baixa um pouco a cabeça

(Logo antes você me disse algo importante
algo que agora é importante
ou três dias atrás
e isso não está na imagem
mas havia suas palavras entre os nossos dedos)

Você levanta o olhar até mim
e os olhos param
há uma tristeza
um silêncio
que começa a durar sem incômodo
você sorri e baixa um pouco a cabeça

(Logo depois voltamos a falar
e isso não está na imagem
mas havia casacos pousados sobre uma mesa
outras mesas
frio, rua e mãos)


(Lisboa, 21-25 de dezembro de 2009)
Há pequenas impressões finas como um cabelo e que, uma vez desfeitas na nossa mente, não sabemos aonde elas nos podem levar. Hibernam, por assim dizer, nalgum circuito da memória e um dia saltam para fora, como se acabassem de ser recebidas. Só que, por efeito desse período de gestação profunda, alimentada ao calor do sangue e das aquisições da experiência temperada de cálcio e de ferro e de nitratos, elas aparecem já no estado adulto e prontas a procriar. Porque as memórias procriam como se fossem pessoas vivas. Acreditem que sim e passamos ao capítulo seguinte. (Augustina Bessa-Luís, "Antes do degelo". Anotado em Lisboa, no dia 17/12/09.)

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

24 de janeiro de 1953. Sábado de manhã, e me dedico ao velho exercício de apanhar o tempo entre os dedos, conforme ele passa, sempre passa e foge. (...) Tenho me dedicado à leitura dos versos vigorosos e densos de Gerard Manley Hopkins novamente: "Como manter - há um modo qualquer, qualquer um, haveria um meio, nos lugares desconhecidos, algum laço ou broche ou trança ou nó, grampo, trinco ou tranca ou chave para conter/ a beleza, para impedi-la, beleza, beleza, beleza... de desvanecer?". Sim, obcecada, como sempre, com o esvair do tempo!


(Sylvia Plath)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

(Marc Chagall - Le Printemps)

terça-feira, 6 de outubro de 2009

filme


Seu rosto grande

de perfil

sobrancelhas

um olho

pálpebra

nariz

o vinco acima dos lábios

boca

um pedaço da orelha

cabelo

testa

todos os dias

assim que ligo o computador em que escrevo agora

no fundo de tela

tomando o retângulo da tela

seu rosto grande


Há ainda outro retângulo

em que estou com você

e nos movemos

respiramos

você me olha enquanto a luz morre em seu rosto

fala

ouve

agora

em São Paulo

três de outubro

meio-dia e dezenove

ontem depois das três da manhã em meu quarto

no Rio de Janeiro quase duas semanas atrás

no Recife daqui a vinte dias


Está sempre entardecendo

e já é noite

agora

em São Paulo

meio-dia e trinta e quatro

você acende a luz

caminha até mim

e nos movemos

respiramos

agora

em São Paulo

treze horas e onze minutos

sinto sua falta






(Primeiro poema que escrevo em quase dois anos. Se parece muito com outros poemas que estão aqui no blog, tem o mesmo verso final de um deles. Num primeiro momento, hesitei em aceitar isso; depois percebi que os poemas conversam, este aqui surgiu assim, querendo retomar algumas coisas. Então, eu o coloco no blog para que se dê a conversa.)

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Quando alguém parte, tem de deitar
ao mar o chapéu com as conchas
apanhadas ao longo do Verão,
e ir-se com o cabelo ao vento,
tem de lançar ao mar
a mesa que pôs para o seu amor,
tem de deitar ao mar
o resto de vinho que ficou no copo,
tem de dar o seu pão aos peixes
e misturar no mar uma gota de sangue,
tem de espetar bem a faca nas ondas
e afundar o sapato,
coração, âncora e cruz,
e ir-se com o cabelo ao vento!
Depois, regressará,
Quando?
Não perguntes.


(Ingeborg Bachmann, fragmento de "Canções de uma ilha", tradução de João Barrento e Judite Berkemeier)

setembro




setembro

sábado, 22 de agosto de 2009

("O menino japonês", primeira exibição. Algumas horas atrás.)

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

(14 de agosto de 2009)

Lindos e fluidos e claros esses onze meses.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

como se lembrar da sede?
chris marker pergunta
no filme "sans soleil"

talvez a sede só exista no presente

como se esquecer da sede (enquanto se tem sede)?


terça-feira, 28 de julho de 2009

ANA

(cantando)

Acordar, tentar dormir, comer

Esperar, tentar respirar, ouvir

Descansar, soluçar, tremer

Estender, aplainar, cerzir

E agora

Este amor insistente

Por tudo o que em você se move

Tudo o que em você se espalha

Pela ínfima duração do presente

Angélica me deu este caderno no dia 27 de junho de 2009. Estávamos sentados à mesa de uma padaria em São Paulo, bebíamos, comíamos e conversávamos depois de mais de um ano (mais de dois?) sem nos vermos. Nós dois comemos quindins ao final.

Ela me disse que gosta dos cadernos de 24 folhas, porque consegue começá-los e terminá-los. Eles são bons para o trabalho em um projeto só. Ou para fragmentos. E não intimidam. Ela me disse que escolheu um caderno sem pauta para que eu pudesse desenhar.

Estou muito surpreso agora. Parei para pensar na data de hoje para escrever aqui e só então me dei conta de que é 27 de julho. Como com a caderneta que Aline me deu, escrevo neste caderno pela primeira vez exatamente um mês depois de o ter recebido de presente.

Estou num estúdio de edição de som, no primeiro dia de pré-mixagem do som de "O menino japonês". Seguem-se os procedimentos técnicos iniciais, eu apenas observo e ouço. As frases dos diálogos se repetem muitas vezes, muitas vezes. Ou - Rômulo e eu, na tela e nas caixas de som, repetimos muitas vezes as mesmas palavras.


quinta-feira, 23 de julho de 2009

(início)



Aline.
A primeira palavra aqui.
Aline me deu esta caderneta (fiquei agora em dúvida com a palavra caderneta - como chamar isto) no dia 20 de junho de 2009 em Florianópolis na casa dela e do Diego.
Dias azuis. 18, 19 e 20 de junho.
Aline e Elisa.
Aline tem uma caderneta cuja capa tem uma estampa igual à desta mas com cores diferentes.
Hoje é dia 20 de julho.
Estou no Rio de Janeiro, no primeiro ensaio de "A máquina de abraçar" (Mariana e Marina trabalham com Denise - agora comentam o trabalho com Malu - movimento, gesto, mãos, tempo).
Por que hoje estas primeiras palavras aqui?
O chão coberto de linóleo preto, as paredes pretas, cortinas pretas, cortina vermelha ao fundo. Atrizes, diretora, preparadora corporal, assistente de direção. Uma caixa preta. Um ensaio. O impulso de escrever (que vem de longe, de outros ensaios, da sala preta, de me sentar no chão e observar, ouvir).
E é dia 20 de julho, só me dei conta ao escrever aqui - um mês.





(hoje, dia 23, cheguei a São Paulo e uma carta enviada no dia 20 me esperava)

terça-feira, 14 de julho de 2009

PEDRO

Tá. E se a gente não se encontrar nunca mais a gente fica aqui vagando pelo parque até morrer.


TERESA

(sorrindo)

Não, até depois, junto com os espíritos. Ou os zumbis. Não sei quem habita essas árvores.

Pedro começa a andar. A cada passo, chuta de leve as folhas que estão sobre o chão, espalhando-as um pouco.

TERESA

Ah, Pedro, esqueci...


PEDRO

(sem olhar para trás)

Agora eu já comecei a andar, a gente só pode se falar de novo quando se encontrar por acaso no fim, não é isso?

Pedro anda mais um pouco. Olha os próprios pés enquanto espalha as folhas. Depois olha para trás.

Teresa não está mais lá.

domingo, 21 de junho de 2009







Florianópolis.

Os dias azuis.



sábado, 13 de junho de 2009

Três shows:

Juliano Gauche cantando Sérgio Sampaio (visto com meu pai)
Marcelo Jeneci e Laura Lavieri cantando Jeneci (visto com Marco, Clara e Maria Eugênia)
Cida Moreira (e alguns convidados) cantando Kurt Weill, Tom Waits, Chico Buarque, David Bowie, Amy Winehouse e uma porção de outras coisas (visto com Marina Tranjan)

Juliano Gauche e Marcelo Jeneci eu nunca tinha visto.  Muito bonito vê-los entregues, de jeitos muito diferentes, mas muito apaixonados pelo que cantam, sem medo nenhum de afundar na paixão. E gosto muito, muito das canções do Sérgio Sampaio. E gosto muito da Laura Lavieri (de vê-la cantar, de conversar com ela). 
Cida Moreira vi muitas vezes (eu a vejo sempre que tenho a chance, há mais de dez anos já). É sempre novo, é sempre espantoso para mim. E no meio de tudo, "Back to black", da Amy Winehouse, apropriada por Cida com um entendimento tão profundo, uma força, uma sinceridade. Acho que é disso que estou tentando falar, o que para mim junta esses três shows que vi no período de uma semana: a sinceridade (nenhum cinismo, nenhum verniz: lá estão as pontas, os rasgos, a doçura).


quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sixteen, Fifteen, Fourteen
(P J Harvey/ John Parish)

Erika is watching.
Daniel is hiding.
Erika is counting, "16,15,14,13,12,11,10,9"......
Erika is coming.
The sun is setting the scene.
In the garden it's starting to rain.
The trees are trembling.
Erika's repeating, "oh, oh, oh, oh"......
Erika is feeling something.
Daniel is hiding.
She's counting, "16,15,14,13,12,11,10,9,8,7,6,5,4"......
The sun is leaving the scene.
It took a look and turned away.
The trees are trembling.
Erika's repeating, "oh, oh, oh, oh"......
There is no laughter in the garden.


(Comprei hoje o disco novo de P J Harvey e John Parish, "A Woman A Man Walked By". Ouvi esta canção e li esta letra pela primeira vez há menos de uma hora. Bastaram os dois primeiros versos para eu sentir que algo nela me dizia respeito. E dela eu não saí mais.) 

segunda-feira, 25 de maio de 2009




Ná Ozzetti cantando "Boneca de piche" (Ary Barroso/ Luiz Iglésias) - ou, a alegria.

quinta-feira, 21 de maio de 2009




(Adeus, Dragon Inn, filme de Tsai Ming-Liang que deu origem a "Bilheteira sentada. Projecionista fora de quadro.", outro poema da postagem de ontem.)
(Automat, de Hopper - o quadro que deu origem a "Mulher num quadro de Hopper", um dos poemas da postagem anterior.)

quarta-feira, 20 de maio de 2009

poemas antigos (todos anteriores a 2007, se não me engano)

Laranjeira

O idoso conseguia caminhar

e com seus próprios pés

seguiu até uma árvore do pátio de sua casa

na comunidade de Ostitán

no estado de Tabasco

 

Don Chaguito

aparentemente

trabalhava ainda no campo

 

com seus pés

seguiu até uma laranjeira de dois metros

do pátio de sua casa

na qual pendurou uma corda de náilon

para enforcar-se

 

tinha cento e quinze anos

 

deixou aí jogadas sua cadeira e sua bengala



*


Bilheteira sentada. Projecionista fora de quadro.


Não é preciso que ele diga nada

chove

não é preciso que ele mova trinta graus

a cabeça

e olhe para mim

deve haver goteiras novas

no saguão

me esperam

um pano de chão

um balde

um rodo

me levantarei já

uma de minhas pernas

rígida

as escadas

o talão de ingressos

as poltronas

a luz sobre a tela

a se enfiar

entre

as perfurações da tela

e a perfurar

meu rosto

não espero que

ele veja

 

mas a metade deste pão

cor-de-rosa

recheado

e cozido

que deixei aqui

sobre as latas empilhadas

quero que ele pegue

e coma



*


O animal, os animais


À beira da pista de

asfalto à beira do

gramado à beira do lago

uma ave bica

repetidas vezes

a lixeira de metal

que reflete sua imagem

(o bico acerta o bico refletido

e acerta o bico refletido

e acerta)


Muito maior que as três pombas

que ciscam sobre o gramado

a ave tem penas pretas

e amarelo-esbranquiçadas

que no topo da cabeça

contorcem-se numa crista


O rabo é descompensado:

uma pena quase solta

faz com que a figura inteira pese

para seu lado


Em desequilíbrio, portanto, para alguém

que a observe, a ave deixa a lixeira

e procura algo na grama

sem atentar ao barulho 

que ritmado ressurge 


Uma ave bica

repetidas vezes

a lixeira de metal

que reflete sua imagem


Vinda de nenhum lugar

tem as penas todas pretas e

um grito

o bico

amarelo vivo


de resto é igual à outra

em tamanho crista patas

mesmo que ainda preserve a simetria do rabo


Não são patos

nem cisnes

como tantos à beira do lago


Uma senhora as vê de longe

“olha lá o jacu, Manoela!”

mas de perto se desmente

“não sei que bicho é esse não”


Abandonada a lixeira

a ave de bico estridente

aproxima-se de seu par


e erram ambas pelo parque


até a próxima imagem

refletida no metal


essa imagem insistente

que repetidas vezes

sem urgência

acerta o bico da ave

que se põe à sua frente




*

Mulher num quadro de Hopper

                                    (roubado de Angélica Freitas)


Levarei um dia esta xícara até a boca

Calçarei de volta a luva

Roubarei uma banana da fruteira

sob meu casaco

ou sob meu chapéu

ninguém poderá notá-la

Um dia mastigarei

Ora, posso mover-me

Colocarei a fruteira sobre o aquecedor deste salão

e as frutas apodrecerão depressa

Ora, as horas correm

Descruzarei as pernas

Levantarei os olhos deste líquido escuro

Alguém descerá do carro lá fora

e esbarrará nesta cadeira vazia à minha frente

pedirá desculpa

Alguém dirá do reflexo das lâmpadas na vidraça

é um caminho sem fundo a se enfiar na noite

Levantarei um pouco o braço e os dedos presos na louça

Sentirei o gosto de café

um dia

esta xícara até a boca



*


Pegar com as mãos

(série de poemas)


um corpo

Você foi embora anteontem dentro do ônibus de viagem.

 

Para sair da rodoviária, ele

engatou uma ré muito lenta

 

fez uma manobra para a esquerda

 

e pôde então seguir reto

(seu rosto na janela foi junto).

 

A sua ausência restou, sentada em meu quarto.

 

Ela é um pouco incômoda.

 

Ela ocupa espaço.

 

Ela me faz companhia.

 

Ela dá trabalho.

 

 

Como um hipopótamo levado a passeio.



letra

Como um elefante.

Recebe esta

Pega

Há tempo já que

é matéria

esta palavra

Como um elefante.

Há tempo já

grafite

Esta palavra

Recebe esta

Pega

Como um instante.

carbono



um desconhecido

Esta caneca que você segura

o que quer que tenha dentro

o seu sorriso

a luz que vem da janela

deve ser manhã

vapor leite café

o seu sorriso

a claridade seu olho

o que quer que tenha dentro

seu ombro braço seu corpo apoiado na pia

esta caneca que você segura

a luz que vem da janela

deve ser manhã

ainda

este retângulo

nunca

este retângulo fotografia



contra matéria

O ar que seu corpo empurra

matéria que corre a sala

e se espatifa contra matéria

o piso a parede o teto

você dança





quarta-feira, 29 de abril de 2009

Vaca negra sobre fundo rosa 

Até os cinco anos de idade jamais havia visto um trem de carga;
e até os oito jamais um meteorologista.
                                      A garota com sombrinha chinesa
foi um dia a minha garota com sombrinha chinesa, e a este
que brinca na areia da praia chamamos nosso filho, pois
é o que é, como a bola azul em suas mãos é a bola azul
em suas mãos e o verão é outra bola azul em suas mãos.
As coisas são o que são e sei que antes de precisar
outra vez barbear-me já terão voltado para o frio
de seu novo país. E talvez em meus sonhos
voltem a fazer falta as três dimensões
desse mundo espesso, sublunar, como
uma vaca negra sobre fundo rosa.

(Carlito Azevedo)

quarta-feira, 15 de abril de 2009































Mostrei para Edu e Marina Corazza a versão não finalizada de "O menino japonês" que tenho mostrado para que amigos dêem sua opinião. Ficamos em silêncio ao final por um tempo longo. Depois eles falaram, entre silêncios ainda. Depois seguimos conversando. E foi tudo muito, muito bonito. Me senti muito perto deles. Parte deles. Acolhido.

segunda-feira, 13 de abril de 2009























Rômulo Braga
Paulo Azevedo

"O menino japonês"

segunda-feira, 30 de março de 2009

Dia 22 de março, um domingo, fui ao show do Radiohead e foi das coisas mais bonitas que já vi na vida. "Exit music (for a film)" tocada no palco pareceu condensar tempos diferentes da minha vida, misturá-los, revolvê-los e dar sentido a eles, um sentido novo, velho, novo no instante em que se ouvia a música - dia 22 de março de 2009, noite, céu aberto - e eu cantava junto e muita gente ao meu redor cantava junto. Muita gente e uma beleza tão funda.

No dia 23 começaram as filmagens de "O menino japonês", o novo curta que dirigi. Filmamos até sexta-feira, dia 27. E foram dias muito felizes. 

No dia 26, quinta-feira, Rômulo (ator do filme, pessoa apaixonante) fez um almoço delicioso em minha casa. Conto isso para colocar aqui uma foto, para lembrar (como fiz logo depois das filmagens de "Areia", quase dois anos atrás).


Muitas pessoas de que gosto por perto, fazendo o filme junto. Alegria grande.

Sábado, dia 28, Chico Buarque lançou seu livro novo, "Leite derramado". Comprei ainda de manhã e comecei a ler. Gosto de manter impulsos de fã - comprei três jornais diferentes com textos sobre o livro e os guardei para ler depois. 

Felipe voltou para São Carlos no domingo, dia 29, ontem, depois de mais de um mês aqui. Estávamos no sofá da sala enquanto escurecia. Me lembro da sala clara, depois da sala escura, não da luz caindo. Agora, isso me faz pensar em "O menino japonês". E também em como esse mais de um mês foi bom.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Fevereiro de 2009. Há dez anos me mudei para São Paulo.
(E apesar de pensar na aproximação desta data há vários meses, ainda me parece espantoso.)

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Três poetas, mulheres, rondam meus dias entre o fim do ano passado e o início deste.

Comprei em novembro um livro com traduções de poemas de Emily Dickinson por Augusto de Campos. Li alguns poemas soltos, e voltei repetidas vezes a este:

In this short Life
That only lasts an hour
How much - how little - is
Within our power


Nesta Vida tão breve
De que nos dão só um gole
Quanto - quão pouco - está
Sob o nosso controle



Na primeira semana de dezembro, em Portugal (onde estive para participar do festival luso-brasileiro de cinema de Santa Maria da Feira com "Areia"), comprei um livro com poemas da austríaca Ingeborg Bachmann traduzidos por Judite Berkemeier e João Barrento. Dois fragmentos não me abandonam.


E que testemunha afinal o teu coração?
Entre ontem e amanhã balança,
silencioso e estranho,
e o seu bater
é já sua queda para fora do tempo.

(do poema "Desprende-te, coração")



Coloca uma palavra
no vale da minha mudez
e planta florestas de ambos os lados,
para que a minha boca
fique toda à sombra.

(do poema "Salmo")



Na semana passada, início de janeiro, de volta a São Paulo, comprei uma edição linda de escritos que Ana Cristina Cesar guardava em uma grande pasta rosa, organizados agora por Viviana Bosi em um livro chamado "antigos e soltos - poemas e prosas da pasta rosa". Passeio pelo livro, pelas anotações reproduzidas em fac-símile, folhas datilografadas, letra de mão, páginas de caderno, rabiscos, correções. O poema que copio aqui está inteiro em uma folha, datilografado, sem nenhuma correção ou comentário. 


Gramas

O coração tem pouca ironia de tardinha
Segredos carnais à flor da pele
poemas descarnados aguardando

A vida recusa transportar-se para outeiros
buracos cavados por doninhas
ervas que florescem

O coração tem pouquíssimo fôlego na piscina
Nos quintais dispara úmido
Nas salas fechadas cuida das buzinas

A vida se encarrega das janelas
mas acaba descendo em correria
Não cabe  Não suporta  Não tem peso

 

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Há três dias estou em Florianópolis pela primeira vez.

Ontem escrevi na areia, perto da água, Aline Elisa Caetano Felipe

Algumas coisas não perdi, quero encontrar, guardo.
Há um ano, primeiro de janeiro, uma sensação clara se anunciava, insistia em se anunciar, sem nome, mas clara, palpável.

Escrevi aqui uma palavra.

2008 foi um ano impressionante para mim.

Muita coisa que eu esperava, que eu vinha esperando, muitas coisas espalhadas no tempo, se concentraram em um ano só, de uma maneira generosa, delicada. Um ano muito bonito para mim.


quarta-feira, 30 de abril de 2008

Num dia muito quente, numa sala de cinema sem ventilação, ele ocasionalmente se abanava com um folheto. O vento que fazia chegava até mim às vezes. Eu me afundava na cadeira e era isso a mais alentadora alegria.

sábado, 15 de março de 2008

O primeiro dia frio.

Uma sensação antiga e sem cura.

domingo, 10 de fevereiro de 2008























(Isaak Levitan, pintor russo, 1860-1900)

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

(explosão)

sábado, 3 de novembro de 2007

A noite

I
Seu rosto ilumina-se aos pedaços
você ri
traços de luz desordenados
sua alegria
a música alta
você ri
fecha os olhos, levanta um braço
traços de luz colorida
desordenados

II
Quando sua cabeça inclina-se para baixo
enquanto você dança
parece uma foto que conheço
olho por mais tempo
espero sua cabeça inclinar-se de novo
tento sobrepor esta imagem que vejo
à foto de que me lembro
mas sua pergunta me resgata
Você é quem eu estou pensando?

III
O que você fala para mim
se parece comigo
o que eu acho que eu
o que eu posso ser
ter sido
O que você fala
A maneira como fala
Sua voz
Sua cabeça pendendo até meu ombro
enquanto você dorme sentado sem se dar conta
Um barco que se mistura ao mar e ao nevoeiro
Uma trapezista
Os traços de luz
precisos
desordenados
sobre seu rosto

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Talvez seu desencanto
A insistência de seu desencanto

Seu olho que não consigo saber de que cor
A hesitação diante das palavras, uma língua que não é a sua
Seu olho que não consigo saber

(deitar-se na cama e ficar)

O barulho lá de fora
a água caindo na fonte, os carros
As janelas diante das janelas
e ninguém que olhe

As canções que se sucedem
de modo aleatório
aqui dentro do quarto

(cantarolar versos soltos)

O volume da música que parece aumentar
quando nos aquietamos

(cantarolar)

(deitar-se na cama)

(ficar um instante)

Um quarto que não é o seu
Uma cidade que não é a sua
Um país
A proximidade de sua partida

A foto que encontrei
Um metro e oitenta e sete
Um metro e oitenta e seis e meio
Você no canto direito do quadro
olhando com atenção
alguma coisa que não vejo

(esperar nada)

(esperar, ainda assim)

A ausência
este bloco
seu nome

(falar seu nome)

(repeti-lo)

sábado, 7 de julho de 2007

07/07/07

sexta-feira, 6 de julho de 2007

Braços nos quais eu hei de morrer um dia.
(Vi "Melodrama" - peça da Companhia dos Atores, escrita pelo Filipe Miguez - em 1997 pela primeira vez. Revi hoje, 2007. Eu e Maria Eugênia nos demoramos de pé numa esquina conversando depois da peça. Nosso tema antigo, o tempo que passa. Hoje, cinco de julho, coisas perdidas vieram se reunir em mim de novo).

quarta-feira, 4 de julho de 2007

Um pouco depois de colocar aqui a foto, reli por acaso este poema. E tive vontade de também colocá-lo aqui.


Janela

Olhei pela janela ao raiar do dia e vi uma jovem macieira, diáfana em meio à luz.

Quando olhei de novo ao raiar do dia lá estava uma grande macieira, carregada de fruto.

Passaram-se decerto muitos anos, mas não me lembro de nada do que aconteceu neste sonho.


(Czeslaw Milosz traduzido por Henryk Siewierski e Marcelo Paiva de Souza)

(janela do meu quarto, 4 de julho, manhã ensolarada com vento frio)

terça-feira, 3 de julho de 2007

(do bloco de anotações, 2 de julho)



Na padaria, o pai e a filha sentados numa mesa, um de frente para o outro, tomando café da manhã. Ela tem uns onze anos, acho. O pai tem um caderno. Abre-o e mostra desenhos para a filha. Vejo pedaços dos desenhos, parecem muito bons. Num deles, um garçom segura uma bandeja entre mesas cheias de gente. A menina olha os desenhos com muita atenção, muito interessada. Ri. Faz comentários curtos que não escuto bem. O pai também faz comentários. Tenho a impressão, sem nenhum motivo claro, de que os dois não devem morar juntos. Nem sei se são pai e filha, apenas assumi isso. O homem começa um desenho novo. Ela olha para o caderno. Seus olhos se demoram nas coisas. Ele atende o celular, continua desenhando enquanto fala. Apoiada na mesa, ela olha o caderno, muito atenta ao desenho que vai se formando, ou à maneira como ele move a mão enquanto faz os traços. Sorri, às vezes. Ele desliga o celular. Muda um pouco de posição, vejo que o que está desenhando é ela apoiada na mesa, com uma cara um pouco tristonha, uma xícara na frente e um balãozinho de pensamento vazio. Acho que ela não está tristonha exatamente. Está com o pensamento perdido em algo que o desenho não explicita. Ele termina o desenho, levanta o caderno para exibi-lo a ela, como fizera com os desenhos anteriores que já estavam prontos. Ela sorri lindamente.



(Um pouco mais tarde, ouço uma mulher dizendo "Vocês devem estar morrendo de saudade de mim". Olho e vejo que ela dá um beijo na menina, depois no homem e se senta com eles.)

domingo, 17 de junho de 2007

"Andar es no moverse del lugar
que escogimos"
María Victoria Atencia, "Exilio"

O teu corpo
treme
perto do meu
estamos sentados
um ao lado do outro
na minha cama
no hotel
é como se tivesses febre
mas não estamos doentes
eu sinto-me muito calma
abraço-te
peço-te desculpa
por te abraçar
retirei a estes poemas
o exotismo
aliás não houve exotismo nenhum
senti-me como o peixe na água

(Adília Lopes)

sábado, 9 de junho de 2007

algum sentido

onde é que
o que é que
este teto ainda vai me
onde é que dói
onde dói

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Clara – Quando eu saí do metrô, um menino de uns sete, oito anos com uma prancheta na mão se aproximou de mim, perguntou se eu podia responder uma pesquisa para ele. Eu falei “desculpa, eu tô com um pouco de pressa”, ele disse “tudo bem”. Ele estava de uniforme escolar, eu olhei e percebi outras crianças com o mesmo uniforme fazendo a pesquisa com outras pessoas. Olhei para trás, o menino já estava afastado. Eu estava ansiosa para chegar aqui, sem saber se estava perto ou longe, com medo de me atrasar. Por isso eu não quis parar para responder. Mas de repente aquilo me pareceu uma coisa que não ia ter cura nunca. Eu não sabia se eu devia voltar, chamar o garoto, falar para ele fazer as perguntas, a gente precisa tanto ouvir um sim, mas parecia impossível dizer “eu estava mentindo, eu tenho tempo para a sua pesquisa”. Eu não fui ríspida com ele, nem ele pareceu triste, não era isso. Mas eu tive uma vontade tão grande de responder, de ouvir mais aquele menino, o jeito dele falar. Eu queria entender. O que é que podia ser, o que você acha? O que a escola pede para um menino de sete anos perguntar para as pessoas na rua? Eu tentei me lembrar das matérias, mas eu não sei. Eu não consigo nem supor alguma coisa. Eu queria entender.



(da peça "Seis da tarde")

sexta-feira, 25 de maio de 2007

algum amor algum amor que parece estar cavado no meu corpo

quarta-feira, 23 de maio de 2007

Não há poema novo.

Mas pensei agora em "Pia" e, procurando por ele, reli, por acaso, "osso".

Cansado de tanto silêncio.

Ia dizer que os dois poemas são de 2006, mas me dei conta de que, se não me engano, os dois são de 2005.


osso

aperta os dedos no meu braço
deita a cabeça num osso que abandona meu ombro
tem um nome
não me lembro
aperta os dedos
aperta
faz dois dias que não choro
repete não ouvi
não, nada





Pia

Você abre a torneira
a luz da lâmpada
baixa um pouco
volta
quando a água pára de correr

então deve ser quente
aí dentro da tigela
que você lava

suas mãos se demoram
na água

mais de um ano
uma carta
escrita
enviada

você aperta a massa
de trigo, fermento
água
ou leite
ovos
talvez
sal

domingo, 22 de abril de 2007


Malu e Rafael. E mais gente encantadora. Dias bonitos. E a falta que isso deixa.













A areia está um pouco quente. Eu encosto nela com a mão e com as pernas. Nós estamos sentados. Sua bermuda é vermelha. Seu nome. Uma pedra de sal na minha boca.








("Areia" está filmado.)

segunda-feira, 9 de abril de 2007

A tartaruga

A tartaruga venceu Aquiles
unicamente com a razão
mas nem por isso tem ambição
de tornar-se o atleta do mês.

Para não infringir as leis
físicas, vai com moderação
não mete os pés pelas mãos
usa uma pata de cada vez.

O dia ainda mal amanhece
quando no jardim ela aparece
para iniciar sua aventura

e até que o sol se ponha
andará rumo àquilo com que sonha:
o coração secreto das verduras.


(Jacques Roubaud traduzido por Marcos Siscar)

domingo, 21 de janeiro de 2007

Conheci alguns poemas de Benjamin Prado, poeta contemporâneo espanhol, traduzidos por Marília Garcia na revista Inimigo Rumor número 18, que saiu no meio do ano passado. Gostei muito e muito dos poemas, voltei a eles diversas vezes. E então passei alguns meses sem lê-los. Na semana passada, relendo coisas da revista, me surpreendi com o quanto "Olhando fotos de Anne Sexton (1928-1974)" me remeteu ao roteiro de "Areia", curta que vou dirigir em abril (e cuja primeira versão escrevi em 2003). Fiquei feliz. E descobri coisas novas sobre o roteiro. E a vontade de filmar só aumentou.



.

Olhando fotos de Anne Sexton (1928-1974)

Na primeira foto, Anne Sexton olha o mar.
Sabemos que é uma praia da Virgínia,
Carolina do Norte, e que é o ano
de 48, um dia
de sua lua de mel.
Tem os olhos
semifechados, enquanto ouve o rumor
das ondas, o vento que desfaz
e volta a erguer as dunas,
a água que se move com lentidão,
que traça
linhas,
curvas,
esferas.
A água que se move como a mão
de alguém que escreve a palavra oceano.

Na segunda imagem
– agora já estamos em mil novecentos e
setenta e quatro –, fuma um cigarro
perto de uma janela – por alguma razão
creio que do outro lado do vidro há um bosque –
e observa as figuras
formadas pela fumaça: peixes,
um iceberg,
uma sereia,
um anjo
gravemente ferido na neve.

Nesta foto
tem um aspecto estranho,
parecido ao de alguém que corre para um vulcão
ou ao de alguém que acaba de largar uma faca.

Poucos
dias
depois
Anne Sexton vai se matar
nesta mesma casa;
vai deixar
seus anéis
sobre uma mesa, na cozinha,
e em seguida
entrará na garagem
com um copo
de vodka
na mão,
ligará o motor
do carro – um Cougar vermelho – e o rádio
– você imagina o que ela pôde ter ouvido? James Taylor?
Grateful Dead? Pink Floyd? –
e aguardará a morte.

Fecho o livro
Você me olha.
Sei o que está pensando:
- A vida é muito difícil.
Uma mulher é um relógio de areia.



(Benjamin Prado – tradução de Marília Garcia)

sábado, 13 de janeiro de 2007




Nha cretcheu, meu amor,
O nosso encontro vai tornar a nossa vida mais bonita por mais trinta anos.
Pela minha parte, volto mais novo e cheio de força.
Eu gostava de te oferecer 100.000 cigarros, uma dúzia de vestidos daqueles mais modernos, um automóvel, uma casinha de lava que tu tanto querias, um ramalhete de flores de quatro tostões.
Mas antes de todas as coisas bebe uma garrafa de vinho do bom, e pensa em mim.
Aqui o trabalho nunca pára. Agora somos mais de cem.
Anteontem, no meu aniversário foi altura de um longo pensamento para ti.
A carta que te levaram chegou bem? Não tive resposta tua. Fico à espera.
Todos os dias, todos os minutos, aprendo umas palavras novas, bonitas, só para nós dois. Mesmo assim à nossa medida, como um pijama de seda fina. Não queres? Só te posso chegar uma carta por mês.
Ainda sempre nada da tua mão. Fica para a próxima. Às vezes tenho medo de construir essas paredes. Eu com a picareta e o cimento. E tu, com o teu silêncio.
Uma vala tão funda que te empurra para um longo esquecimento.
Até dói cá ver estas coisas mas que não queria ver.
O teu cabelo tão lindo cai-me das mãos como erva seca.
Às vezes perco as forças e julgo que vou esquecer-me.


(Ventura e Pedro Costa, "com três ou quatro coisinhas de Robert Desnos", para o filme "Juventude em Marcha", de Pedro Costa)




Das cartas censuradas 2

Talvez gostasses de me mandar abraços
mas mudei de endereço e de vista da janela
te escrevo então para dar notícias

Moro agora perto do mar
ou seja o mar, me dizem, é perto
e quando o vento levanta as ondas
sinto sal nos lábios
e a concha da minha orelha é como concha marítima


Lá do andar das minhas companheiras
dá pra ver, me dizem, atrás das árvores do bosque

uma faixa azulcinza
poderia subir quando é permitido
e conferir
mas não quero

Através dos outros
sei que estás bem
e fico contente
e fico preocupada que cortaram, ouvi dizer, teu tempo
/de passeio
mas fecho os olhos
e juntos
andamos pelos campos como antes como tantas vezes
e não te preocupes
me abraçarás sob uma árvore viva
e não te preocupes

não choro quando abro os olhos
e vejo muro
o soldado armado


Darlówek, campo de internamento
março de 1982


(Anka Kowalska - tradução de Ana Cristina Cesar e Grazyna Drabik)





segunda-feira, 8 de janeiro de 2007

venha voando
(para Angélica Freitas, outra vez)

Voltei a comer bolinhos de polvo
depois de quase um ano
ou um ano inteiro
não sei

A chuva começou
assim que me entregaram
o prato de plástico
com os bolinhos

Eu os comi sob o toldo
de pé
no asfalto

O gosto era bom
o mesmo

Em dezembro
três semanas atrás
encontrei
no meio do mato
uns morangos silvestres
que eu costumava comer há quinze anos

colhi um
coloquei-o na boca
senti
o que me fizeram sentir
as papilas gustativas
um sabor
que conheço
e de que gosto
ainda

nenhum abismo de tempo



hoje
na chuva
voltando para casa
falei sozinho
os bolinhos de polvo ainda são bons
sinto sua falta

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

e um século

Recortado pela janela
do apartamento
que bóia iluminado
no centro do quadro
da cidade
vista daqui deste quarto
no início da noite de domingo
aquele homem passa roupa
com empenho

Roupa para toda a semana
penso
e observo os movimentos dele
rápidos
repetidos
enquanto escuto você falar
enquanto falo
enquanto este quarto escurece
e me espalho devagar
por esta facilidade nova:
uma conversa
que corre como o ferro sobre a roupa
como os carros na rua
como a corrente elétrica pelos fios
das lâmpadas pequenas que piscam
penduradas na árvore de natal da sala
daquele outro apartamento
vizinho ao do homem que sem camisa
nesta noite quente
17 de dezembro de 2006
em São Paulo
passa roupa
e habita o presente

domingo, 10 de dezembro de 2006





























Paula Rego

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

http://www.asescolhasafectivas.blogspot.com/

(Angélica e Marco, amigos grandes, me mencionaram, então fui convidado pelo Aníbal Cristobo a mandar três poemas para lá. Dois deles não estão aqui no blog. E há muita coisa lá para ser lida, começando por Angélica e Marco.)
Eu me sentava e esperava morrer ela disse
(roubado de Clara Lobo)

Eu me sentava e esperava morrer ela disse
o que havia para mim
entre acordar
e voltar a dormir
antes que você começasse a vir visitar-me
era
sentar-me
e esperar morrer

você me conta ela não tem força para levantar um prato
ou levantar-se sem ajuda

o filho antes de sair para o trabalho deixa a comida pronta
em algum lugar que ela alcance com facilidade
o filho volta à noite com cuidado a deita na cama
quase não encontra para ela palavra

moram em Boston
onde não se fala polonês
ou francês ou alemão ou latim
não inglês ela não fala

os dois livros de história polonesa que escreveu devem estar guardados
junto aos outros livros
sem uso
os olhos não encontram foco
a lucidez não vai embora

você a vê uma vez por semana
leva-a sem nenhuma pressa até o parque senta-se com ela no banco
e fala
e ouve
fazendo uso do francês que também você aprendeu em outro país
eu me sentava
e esperava e o
tempo só existia
segundo
depois
de
segundo
para um nada um
nada
oitenta e nove anos
não há muito pareciam fazer
sentido respirar parecia
fazer sentido
como agora
porque toda quarta-feira
eu quase não a conheço você é jovem tão jovem mas toda quarta-feira você fala francês e

fala comigo

eu me sento
e espero
por este dia da semana
As fotos aí de baixo, que nunca comentei, são de Biarritz (as três que têm mar) e de Paris (as outras seis). Fui para lá no fim de setembro/início de outubro para participar do Festival de Cinema Latino-Americano de Biarritz com o curta "O diário aberto de R.". Foi uma viagem muito boa. A primeira vez que fui à França, a segunda vez que saí do Brasil (fui a Portugal, em 2004, com o meu curta anterior). Dez dias, contando o tempo de viagem. Bóiam no meio da minha vida em São Paulo. Não porque sejam melhores que ela. Apenas não consegui ainda misturar as coisas, trazer para cá sensações importantes da viagem que, espero, estão guardadas em algum lugar.

quinta-feira, 5 de outubro de 2006



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sábado, 9 de setembro de 2006

Motor

Vou acabar machucando minha boca você diz
seus lábios estão ressecados pelo frio
seus dentes encontram as pontas de pele
para arrancá-las

Antes que se pense a respeito
os dentes lá estão

E mesmo que se pense a respeito
os dentes lá estão

Há pouco você evitou um outro gesto irrefletido
quando sua mão e seu fôlego
estavam prontos a acender um cigarro

Sem um maço
e sem fogo
no bolso
o gesto não se completa

e ainda que o sabor da fumaça não mais o mova
por um instante a mão e o fôlego
são no seu corpo algo que falta

trata-se de um buraco

a morte difícil de um hábito


Meus lábios também se partem no frio
e também os mastigo

Não precisa esperar comigo você diz
passar frio à toa
o ônibus vem logo
ou demora pouco
posso esperar sozinho

Eu sorrio
não sei dizer nada
não saio daqui
necessito
(como sua mão de um cigarro que se tire do maço
e se prenda entre os dedos)
ver você entrar no ônibus olhar ao redor sentar-se
ver você
ainda
enquanto desaparece

quarta-feira, 28 de junho de 2006

Vi, na semana passada, "O homem urso", documentário do Herzog. Me lembrei deste poema.



As mágicas luzes da ribalta

Um urso de vestido branco e véu rendado corre pela beirada do picadeiro
com uma das patas dada a um urso que veste fraque e gravata

não é um casamento

os dois se mantêm cambaleantes sobre as patas traseiras
e usam cada um uma focinheira que não os deixa abrir a boca

talvez alguém na platéia solte uma gargalhada
sem que eles saibam por quê
enquanto seguem correndo ao som da fanfarra

os olhos de um e do outro perdidos

Quem preparou este número
teve sucesso, sem dúvida:

são agora figuras humanas

não por causa da gravata
tampouco pelo vestido
Eu não sei quem são Melkor e anônimo que deixaram comentários aí para baixo. Fico curioso.

quarta-feira, 14 de junho de 2006

Trecho de "Uma faca só lâmina", de João Cabral de Melo Neto:


assim como uma faca
que sem bolso ou bainha
se transformasse em parte
de vossa anatomia;

qual uma faca íntima
ou faca de uso interno,
habitando num corpo
como o próprio esqueleto

de um homem que o tivesse,
e sempre, doloroso,
de homem que se ferisse
contra seus próprios ossos.

Seja bala, relógio,
ou a lâmina colérica,
é contudo uma ausência
o que esse homem leva.

quarta-feira, 7 de junho de 2006



a onda

(Camille Claudel)

sábado, 6 de maio de 2006



sábado, 29 de abril de 2006

e agora não consigo
lembrar o dia que não consigo
esquecer

- não era essa a letra da canção mas
foi o que entendi
lembrei: andamos os dois juntos
por dez minutos
em 1996
ao longo de uma rua
até a esquina
e,
depois de dobrarmos à esquerda,
até a esquina seguinte
em frente ao prédio em que você morava
tchau ou até logo ou
penso nisso
desde então

mas não consegui salvar nenhuma palavra

e devemos ter dito quinze ou dezesseis
cada um

quarta-feira, 26 de abril de 2006

Vivo
(roubado do Daniel Turini)


Lurdes ganhou da sobrinha-bisneta
um cachorro de pelúcia
dispensa cuidados ao cachorro
todos os dias
está caduca
dizem
na família
sabe, querida, o cachorrinho que você me deu?
ontem latiu para mim
claro vovó
(toma mamãe o telefone rápido
faz alguma coisa
minha tia-bisavó está caduca)
não conte ainda para sua filha, Agda,
mas ela caiu justinho no chiste
do primeiro de abril
acredita
imagine
que o cachorro late
- A Suzana atendeu hoje um cara chamado Ita. Como você chamaria um cara chamado Ita?
- Senhor Ita?
- Ela disse que ele quase gritou no telefone "Ô, menina, pára de me chamar de Senhor Ita. Me chama de qualquer coisa, Seu Ita, doutor Ita, mas pára de me chamar de Senhor Ita, pelo amor de Deus".

segunda-feira, 3 de abril de 2006

venha voando
(para Angélica Freitas)


deixei
as roupas do ano passado
no ano passado
vamos tomar um suco
e comer bolinhos de polvo
sob o sol
de pé
no asfalto

deixei os ombros cobertos
no ano passado

deixei de ouvir a cidade
o que dizem para mim
quando ando sozinha

ouço música
e olho
assim não tenho que estar todo o tempo
a procurar curativos
“pensos-rápidos” diria Adília
algodão e esquecimento

deixei o ano passado
no ano passado
não deixei tudo
é verão mesmo nesta cidade
uso blusa de alcinhas
vamos tomar um suco
e comer bolinhos de polvo
sob o sol
de pé
no asfalto


(poema escrito para ser lido no almoço de domingo que virou janta que virou dia inteiro muito feliz com pessoas fabulosas)

quinta-feira, 30 de março de 2006

foto dentro de um chaveiro

Ela vai até a beirada do palco
afasta o microfone da boca
canta
pode chorar
um rasgo
um leito
pode chorar

antes
(agora ainda
no canto direito
da gaveta)
nós dois
esboçamos
um sorriso cada um
a pedido do comerciante de lembranças



segunda-feira, 20 de março de 2006

um buraco

um homem entrou
no ônibus
conversou com o
cobrador falou alto
(encontra assunto
com todo mundo)
eu sou esse homem
ele falou não me lembro o quê
nada
faz anos já
estava de pé, ele,
sem camisa
junto ao cobrador
sem passar a roleta
falava
e se movia
gesticulava
tinha um corpo
não me lembro qual
era um dia de semana
não chovia
eu estava sentado
o homem
estava de pé
falava
e se movia
eu sou esse homem
pensei
não sou
o ônibus
seguia para algum lugar
onde ele desceu
não me lembro nem
de vê-lo passar a roleta

domingo, 5 de março de 2006

Terça-feira

Às seis e meia da manhã
o rapaz estava na sala
com a mãe
a irmã
e dois policiais
enquanto o delegado e o perito
examinavam o computador da casa
no quarto de empregada

o rapaz de dezessete anos
pediu licença
deixou a sala
onde estava acompanhado da mãe
da irmã
e de dois policiais
foi a seu quarto e se atirou da janela

meu filho gostava
das madrugadas
diante da tela
não sei nada sobre fotos
salvas no arquivo
crianças menores de quatorze anos
bebês
ele dormia tarde
nas férias escolares
passava as madrugadas
diante da tela

mas isso não diz tudo sobre ele
havia outras coisas
de que gostava
eu não sei dizer
quais eram
mas havia

sábado, 25 de fevereiro de 2006











Desfile

Nada é do tamanho
do que sinto agora em mim
nada do que sinto
foi sentido tanto assim
só a dor constrói
só o amor que dói
só mas com amor
meu mundo é maior

Nada é do tamanho
do que já desfila em mim
filas de escolas
com milhões de tamborins
e eu sem ter lugar
pra tanto bem e tanto mal
tudo isso vem
de Pedro Álvares Cabral
desde os ancestrais
desde os canibais
desde os meus avós
desde os meus pais
desde que nasci
acho natural
tanta solidão
no esplendor do carnaval


(letra de Luiz Tatit, música de Ná Ozzetti)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2006

Farpa

Esta porta não abre mais
emperrou muito tempo atrás
quando você se foi pra nunca

Da varanda ao corredor
pespegada essa dor
já respirado, o ar parou

Do porão até o portão
desde o chão até minha mão
tudo guarda camadas de pó

Mas se range a madeira do piso
sob qualquer pé
tudo se mostra tal qual não é

Esta porta se faz abrir
o telhado não vai cair
móveis limpos, passado algum

Eu respiro, eu espero
converso, tento esquecer
me torço, tento esquecer
esqueço, tento esquecer

Pelo avesso é que eu sigo bem
sua falta não vai além
dessa frincha que o teto abriu

Mas mesmo se ninguém vê
a farpa que sobrou de nós
debaixo da unha ainda dói


(letra para o samba composto pelo Heron Coelho)

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006

ah, tristeza
escorregue
deslize até a esquina
deslize
o rosto metido no vento
deslize
veloz
veloz
na descida

terça-feira, 21 de fevereiro de 2006

Ainda
(roubado de Mauricio e Marina)

No meio da cidade de Berlim
um rio parou de correr
congelado

Numa ponta da África do Sul
o vento não deixou
que uma pessoa desse um passo

Aqui
o tempo
continua passando

Ontem mesmo
(nunca

chega)
quatro horas se perderam

domingo, 19 de fevereiro de 2006

Poema da Adília Lopes, poeta portuguesa, tirado do livro "César a César", de 2003:



(a partir de Teixeira de Pascoaes)


Se não
fossem
as minhas
coisas
eu não
era
a que sou

As coisas
estão
partidas
estão
perdidas
por minha
culpa
e causa

A mim
não volto
mais

Porém
sem
minhas
culpa
e causa
(de partir
e perder)
eu não
era
a que sou

sábado, 18 de fevereiro de 2006

















Foto de Beth Gotardo (minha mãe).
Observe o vão entre o trem e a plataforma

um condutor do metrô equivocou-se um dia
a porta que se abriu à minha frente
dava para o buraco dos trilhos


alguns metros de hiato

entre o trem e a plataforma


o que mata é
pôr uma mão em um trilho
outra mão em outro
e deixar a corrente elétrica
achar no seu corpo um caminho
para ir embora

e ir embora

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2006


















Ainda ela ainda ela não me sai da cabeça nestes dias.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2006

Judy Garland.
Em um DVD muito barato que encontrei, ela canta num programa de televisão que apresentou entre 1963 e 1964. Fragilidade exposta, força, alegria brincalhona, tristeza sem fundo.



Longe longe uma palavra que não chega

pego esta hora
e a engulo
com um gole d‘água




terça-feira, 14 de fevereiro de 2006

Últimos dias

A cavidade do olho de uma pessoa
encaixa-se no ombro de qualquer outra



Abaixe-se um pouco
eu inclino a cabeça
e desapareço na ponta de seu osso



*


As coisas
ganham contorno

a primeira luz dilui a noite

eu olho você olha

debruçado
na janela
este silêncio



*


um corpo

deixa outro corpo

e caminha para o alto

como um corpo

que escalasse a porta de vidro

como um corpo

feito de tempo e matéria

que deixasse outro corpo

(ele mesmo)

caído



*


daqui a uma hora
e dois ou três minutos
um dia
inteiro
terá terminado

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

Seis da tarde

À beira da cama, sentada
O quarto azul como nada
A tarde é que morre
por trás da cortina
nos móveis
na mão
na retina

Sentada, os pés na madeira
O instante é a história inteira
O chão deste quarto
é o espaço do mundo
o tempo
é pra sempre
um segundo

Que surja lá fora
um qualquer ruído

Que venha dos outros
um qualquer indício

Sentada pra sempre agora
À espera do que a leve embora
Uns passos na rua
Um brilho no vidro
Um cheiro
há muito
esquecido

À beira da cama, silente
Atenta ao rumor do presente
Não há outro tempo
Não há outra esfera
Presente
é memória
e espera

Não há outro tempo
Não há outra margem
Presente
é demora
e passagem


(letra de canção feita para Marina Corazza em dezembro de 2004)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2006

Fui ver "O que você foi quando era criança?", peça escrita pelo Lourenço Mutarelli, dirigida pelo Donizeti Mazonas e pela Gabriela Flores. Em 1999, meu primeiro ano em São Paulo, a Gabriela Flores estava em cartaz com o "Prêt-à-Porter 1". Eu gostava demais das cenas e dos atores. Especialmente dela e da Daniella Nefussi. Lembro-me de um dia tê-la visto passando pela USP. E depois, assisti a "Fragmentos troianos". Perdi outras peças que ela fez desde então. Hoje, ela estava na bilheteria do Centro Cultural São Paulo, e foi bom vê-la. Ela me entregou o programa, eu agradeci. Uma sensação antiga (outra).

A peça tem coisas muito boas.
Eu a vi com os pés encharcados. E com uma vontade que havia surgido no meio da penumbra da minha casa: a de imergir em alguma coisa.
Hoje o céu escureceu no fim da tarde. Eu estava em casa, sozinho. Só acendi uma lâmpada. Começou a chover. Eu andei pela casa com uma sensação antiga. De quase escuro.
Eu olho esta página e me assusto com o último dia de 2003 logo ali embaixo.

Tempo nenhum passou.
Primeiro poema escrito em 2006, entre 31 de janeiro e 01 de fevereiro. Para tentar outra vez começar isto aqui.


Córrego

Pode deixar que este cão que ronda a rua
não nos vê aqui no escuro
e se nos vê
não liga
vai
volta
vai
não volta nunca mais
o chão de pedra
um vão
e outro
outro


a sombra divide o muro
seus óculos pousados no chão
blocos de pedra e intervalo

seus olhos
líquidos

meu peito
um vão
e outro
outro

quarta-feira, 28 de julho de 2004

Usar palavras é difícil demais.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2004

Virginia Woolf em "Mrs. Dalloway", na tradução de Mário Quintana:

"O Big Ben bateu a meia hora.
Que extraordinário era, que estranho, que comovente mesmo, ver a velha senhora (há tantos anos que eram vizinhas!) retirar-se da janela, como se estivesse ligada àquele som, àquela corda. Formidável como era, tinha alguma relação com ela. Profundamente, em meio às coisas ordinárias, tomba o dedo, solenizando o momento. Ela era forçada por aquele som, imaginou Clarissa, a mover-se, a retirar-se... mas para onde? Clarissa procurou segui-la enquanto ela se voltava e desaparecia, e pôde ainda ver-lhe a touca branca a se mover no fundo do quarto. Para que credos e orações e capas de borracha? quando, pensou Clarissa, ali estava o milagre, ali estava o mistério: aquela velha senhora, a quem podia ver dirigindo-se da sua cômoda para o toucador. Ainda podia vê-la. E o supremo mistério, que Kilman ou Peter diriam ter resolvido, embora Clarissa não os julgasse capazes da mínima idéia em tal sentido, era simplesmente isso: aqui havia um quarto, ali outro."


Virginia Woolf em "As Ondas", na tradução de Lya Luft:

"Agora, trata-se de resumir - disse Bernard.- Agora, trata-se de explicar-lhe o sentido de minha vida. Como não nos conhecemos (embora eu tenha visto você uma vez, penso, a bordo de um navio a caminho da África), podemos falar livremente. Tenho a ilusão de que alguma coisa adere por um momento, assume forma, peso, profundidade, perfeição. No momento, parece ser a minha vida. Se fosse possível, eu a daria a você. Haveria de colhê-la como se colhe um cacho de uvas. E diria: 'Tome-a. É minha vida.'
Infelizmente, porém, o que vejo (esta esfera cheia de imagens), você não vê. Você me vê a mim, sentado à mesa à sua frente, um homem um tanto pesado, de certa idade, têmporas grisalhas. Vê-me apanhar o guardanapo e desdobrá-lo. Você me vê encher o cálice de vinho. E vê atrás de mim a porta que se abre, gente passando."

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2004

O Théo esteve aqui em São Paulo por uma semana. Passei todos os dias com ele, e foi muito, muito bom a maior parte do tempo. Eu o levei de volta para Curitiba no domingo passado.

Uma de suas novas manias é dizer: "Eu tô tliste e blavo" (outra das manias é falar como o Cebolinha). Ele disse isso várias vezes e, numa delas, quando eu perguntei por que, ele respondeu que o motivo da tristeza e da raiva era o fato de ele não ser eu. Depois de falar um pouco sobre isso, sobre eu não ser ele e ele não ser eu, acrescentou que queria poder crescer logo. "Mas em Vila Velha você me disse que queria ser criança pra sempre". "Ah... mudei de idéia". Pausa. "Eu gosto de mudar de idéia, sabe?".

O peso todo da conversa de Vila Velha estava em mim, é claro.

segunda-feira, 12 de janeiro de 2004

Me surpreendeu que o Théo falasse de morte, porque ele não teve ainda nenhuma experiência próxima com a morte. Eu não sei como pode ter nascido nele esse medo, essa consciência. Eu não sei como ou quando isso surge.

O Théo quer seus cinco anos de idade por mais tempo.

E sempre, de algum jeito, me dói a passagem de tudo. Eu não sei como ou quando me nasceu esse medo.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2004

Uma conversa que tive na semana passada com o Théo, meu sobrinho de cinco anos, foi o que me fez criar este blog. A vontade de escrever sobre a conversa. Ou, talvez, de simplesmente tentar reproduzi-la.

Estávamos em Vila Velha - na casa onde morei desde que nasci até os 17 anos de idade - deitados na cama. Não me lembro se tínhamos acabado de acordar. Acho que não, me parece agora que era o meio da tarde, mais ou menos. Talvez a gente estivesse descansando um pouco depois de jogar bola na sala de casa por algum tempo. Com o calor forte que estava fazendo na semana passada, em Vila Velha, devíamos estar exaustos (eu, principalmente, que me canso muito antes do Théo). Isso aconteceu algumas vezes naquela semana: ele insistiu para que jogássemos bola, eu aceitei para alegrá-lo, jogamos por um tempo, eu me cansei e propus que descansássemos um pouco. Não sei se no momento dessa conversa era isso o que tinha acontecido. Nem sei mais o dia exato em que a conversa se deu. Talvez terça-feira, dia 23 de dezembro. Talvez quarta, já, dia 24. O fato é que, quando ela aconteceu, estávamos no quarto que um dia foi do meu pai e da minha mãe, depois foi só do meu pai, depois foi da minha irmã, depois foi da minha irmã e do Théo (dentro do berço), depois foi só da minha irmã de novo e agora não é de ninguém, mas ainda tem um sofá-cama onde eu e o Théo nos instalamos na semana passada (quando estivemos em Vila Velha para, entre outras coisas, passar o Natal). Estávamos deitados na cama. Pode ser que eu estivesse tentando convencê-lo a tomar banho. E eu não sei sobre o que estávamos falando, mas acho que a frase do Théo não tinha a ver com nada do que havia sido dito antes:
"Eu não quero fazer seis anos".
Fazer seis anos não deveria ser uma preocupação para ele agora, já que seu aniversário é só em outubro.
"Por quê?"
"Porque eu quero ficar criança para sempre. Eu vou ficar pra sempre com cinco anos."
"Ah, é? Por quê?"
"Porque eu não quero morrer".

Eu tenho muita raiva da minha memória sempre imprecisa. Maria Eugênia descreve a roupa que estava usando no seu aniversário de, sei lá, sete anos, e eu não consigo lembrar direito o que exatamente o Théo me falou uma semana e meia atrás. Eu queria muito reproduzir aqui o que foi dito naquele dia em Vila Velha, mas o que surge é uma tentativa bastante frágil de lembrança.

Não sei se eu falei alguma coisa depois que ele me disse aquilo, mas meus olhos se encheram d'água. Tentei disfarçar, não quis que ele me visse chorando pra não deixar tudo mais pesado. Ele me perguntou se todas as coisas morriam, e eu disse que sim. "Mas eu não vou morrer", ele voltou a afirmar, pelo que me lembro. Então ele perguntou se um shampoo morria, acho, e aí eu disse que não, que a coisa tinha que estar viva para morrer, e que um shampoo não estava vivo.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2003

Agora já são meus horários e datas. Descobri como mudar algumas das configurações desta página.
Os horários e datas que saem junto com o texto que eu posto não são meus horários e datas, mas os do provedor (é isso?) deste blog. Creio eu que se trate de alguma faixa de fuso horário dos Estados Unidos.
Hoje é dia 31 de dezembro de 2003, por volta das quatro da manhã.