segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011


Uma imagem
               para Gilda Nomacce


Oito de fevereiro de 2011
são quase oito da manhã
ou talvez há alguns minutos já tenha passado das oito

estou indo embora de Amsterdam dentro de um trem
que leva ao aeroporto
o dia está claro
alguns pedaços da cidade ainda se movem
pela janela do meu vagão
ou
a janela do meu vagão ainda se move
pela cidade
e quando vejo algo
é sempre o pedaço de algo

penso em você
tento formar uma imagem sua que faça parte disto
as árvores sem folhas, os telhados, este trem e a maneira como se move
o vento muito forte que me empurrou alguns dias atrás
o frio que não sinto agora
o quarto pequeno em que Anne Frank dormia
com recortes colados na parede
a marca de um recorte que se descolou há mais de sessenta anos
uma escada, uma janela refletida em um espelho
com um pedaço de céu
a água de um canal à noite
a tinta espessa de um quadro
tijolos
luz
penso em você
e sua imagem me escapa
ainda este trem
oito da manhã
alguns minutos
um avião risca o céu com a fumaça que deixa atrás de si
uma linha branca, luminosa
estende-se aos poucos na claridade
à medida que o avião segue descendo
descendo
quase verticalmente:
um talho preciso e difuso
que rasga o que vejo
que cria a hipótese de um espaço
entre o céu e o chão
sendo ainda céu e chão a um só tempo

o trem entra em um túnel
eu anoto: o céu está sendo rasgado
e então entendo:
você é esse risco que rompe a paisagem

1 Comments:

Blogger Samanta Maia said...

É coisa tua? Nem sei como cheguei aqui! Mas li esse, muita sinceridade, sim? (profundamente sincero, admirável).

13/8/11 19:51  

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