e agora não consigo
lembrar o dia que não consigo
esquecer
- não era essa a letra da canção mas
foi o que entendi
lembrei: andamos os dois juntos
por dez minutos
em 1996
ao longo de uma rua
até a esquina
e,
depois de dobrarmos à esquerda,
até a esquina seguinte
em frente ao prédio em que você morava
tchau ou até logo ou
penso nisso
desde então
mas não consegui salvar nenhuma palavra
e devemos ter dito quinze ou dezesseis
cada um
sábado, 29 de abril de 2006
quarta-feira, 26 de abril de 2006
Vivo
(roubado do Daniel Turini)
Lurdes ganhou da sobrinha-bisneta
um cachorro de pelúcia
dispensa cuidados ao cachorro
todos os dias
está caduca
dizem
na família
sabe, querida, o cachorrinho que você me deu?
ontem latiu para mim
claro vovó
(toma mamãe o telefone rápido
faz alguma coisa
minha tia-bisavó está caduca)
não conte ainda para sua filha, Agda,
mas ela caiu justinho no chiste
do primeiro de abril
acredita
imagine
que o cachorro late
- A Suzana atendeu hoje um cara chamado Ita. Como você chamaria um cara chamado Ita?
- Senhor Ita?
- Ela disse que ele quase gritou no telefone "Ô, menina, pára de me chamar de Senhor Ita. Me chama de qualquer coisa, Seu Ita, doutor Ita, mas pára de me chamar de Senhor Ita, pelo amor de Deus".
segunda-feira, 3 de abril de 2006
venha voando
(para Angélica Freitas)
deixei
as roupas do ano passado
no ano passado
vamos tomar um suco
e comer bolinhos de polvo
sob o sol
de pé
no asfalto
deixei os ombros cobertos
no ano passado
deixei de ouvir a cidade
o que dizem para mim
quando ando sozinha
ouço música
e olho
assim não tenho que estar todo o tempo
a procurar curativos
“pensos-rápidos” diria Adília
algodão e esquecimento
deixei o ano passado
no ano passado
não deixei tudo
é verão mesmo nesta cidade
uso blusa de alcinhas
vamos tomar um suco
e comer bolinhos de polvo
sob o sol
de pé
no asfalto
(poema escrito para ser lido no almoço de domingo que virou janta que virou dia inteiro muito feliz com pessoas fabulosas)